A dor que se transforma em crescimento

ALZHEIMER, A DOR DO CRESCIMENTO COMO CHEGUEI LÁ

A Doença de Alzheimer adoece não só o portador, mas a família toda. É muita dor e sofrimento que pode ser transformado em crescimento principalmente para os familiares.

Meu nome é Sueli Mozeika. Sou formada em psiquiatria há quase quarenta anos, entrei na faculdade com o propósito de fazer Psiquiatria. A mente, o comportamento humano sempre me fascinou e posso dizer que me sinto realizada com a escolha que fiz.

Apesar da certeza da escolha, sempre fui muito inquieta e sempre buscando algo a mais. Sempre me questionando a respeito do meu propósito de vida. Sempre com a sensação de ter algo mais a fazer além da psiquiatria.

Há cerca de dez anos minha mãe começou a mostrar comprometimento da  memória recente e, claro, confirmou-se o diagnóstico de Doença de Alzheimer. Como médica tinha conhecimento sobre o prognóstico e evolução da doença. Como filha foi um choque, embora acreditasse que com todo o meu conhecimento teórico, seria fácil lidar com a situação. Ledo engano.

Começou-se o tratamento assim que foi confirmado o diagnóstico. Mas como a doença é progressiva, lenta e gradativamente ela foi tomando conta da vida diária da minha mãe. Há cerca de uns sete anos ela e meu pai vieram morar comigo.

Nesse ínterim ela foi submetida à sua segunda cirurgia para colocar uma prótese no joelho esquerdo. Já havia colocado no direito. Infelizmente apresentou uma queda no quinto dia pós cirúrgico e a prótese se deslocou. Em função da idade e da progressão do Alzheimer após cada cirurgia, não foi indicado outra intervenção. Então sua locomoção também passou a ficar comprometida.

Nesse período as coisas começaram a se complicar cada dia mais e, mesmo com a ajuda de uma cuidadora durante o dia, fui percebendo que a teoria é fácil, mas a prática é muito mais complicada. Exige muito da nossa atenção, modifica a nossa rotina e abala nosso emocional. Precisamos fazer escolhas, abrir mão de muitas das coisas que fazemos. Nossa vida vai se limitando.

REVIRAVOLTA TOTAL

Há três anos meu pai, ele me ajudava bastante, apesar das limitações que tinha em função da idade, veio a falecer. O cerco se fechou ainda mais. Aumentaram as minhas responsabilidades e as minhas limitações.

Confesso que entrei em desespero, foi como se tivessem arrancado o meu chão. Veio então a famosa pergunta: porque para mim? Como filha única não tinha com quem dividir.

Muitas foram as pessoas que falavam para colocá-la numa clínica, mas a ideia era inconcebível. Tenho a plena certeza que se fosse o contrário ela jamais faria isso comigo. Após um sério problema com uma das cuidadoras tentei colocá-la num sistema de creche, ou centro dia, levava de manhã e buscava a tarde. Isso durou apenas quatro dias. Era mais complicado e desgastante. Contratei uma nova cuidadora e limitei meus atendimentos, para ficar mais próximo dela.

Ela passou a ter um quadro de infecção urinária repetitiva, pois nesse período parou de andar. Cada infecção que apresentava ficava extremamente agitada, delirante e perdia o sono e eu também.

Eu, sem dormir, fico extremamente irritada e consequentemente estressada e briguenta. Passei a ficar inconformada. Nesses momentos eu era a filha que queria a mãe de volta, queria um colo, mas tinha que dar o colo.

Sentimentos transformados

A LIÇÃO QUE A DOR NOS ENSINA

Ouvi muitas vezes que precisamos tirar lições com a dor, com os problemas. Mas infelizmente eu estava cega, e rejeitava essa ideia, meu foco era única e exclusivamente o problema. Isso começou a interferir na minha vida pessoal e profissional. A vida social nem se fala, já não existia há tempo. Mesmo sendo psiquiatra, esqueci de me cuidar. Comecei a entrar em depressão, foi quando acordei e consegui ver que além da teoria sobre a doença também tenho a prática do cuidar.  Percebi o quanto é difícil se conviver, não exatamente com o portador da Doença de Alzheimer, mas com a nossa limitação. É difícil e doloroso ver a nossa mãe ou nosso pai, que foram  a nossa referência irem se desligando de nós.

Foi nesse momento que descobri meu propósito de vida: ajudar pessoas que estão vivenciando o mesmo tipo de dor e limitação, através da minha experiência como filha e de meus conhecimentos como médica.

Todos nós viemos ao mundo com uma missão, fugir dela só nos traz dor e frustração. Toda missão agrega valor à nossa vida e à vida dos nossos semelhantes e é essa missão que dá sentido à nossa vida.

Termino com uma frase da Madre Tereza de Calcutá: “Sei que minha missão representa uma gota no oceano. Mas sem essa gota o oceano seria menor”.

Não quero me comparar à Madre Tereza, mas se conseguir contribuir para esclarecer e ajudar a diminuir a dor de algumas pessoas, que cuidam dos portadores da Doença de Alzheimer, já me sentirei realizada.

CURRICULUM

Sueli Mozeika

– Médica – formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes em 1978

 Título de Especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria

– Auxiliar de Ensino:- Clinica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das de 1980 –  1984.

– Curso de Pós Graduação em Psicologia Clinica – Área de Concentração; Instituto Metodista de Ensino Superior, no período do 2 º semestre/81 à 2 º semestre/83

– Curso de Especialização em Psicoterapia Analítica de Grupo:– Instituto de        Psicoterapia de Grupo da Associação Paulista de Psicoterapia de Grupo; formação em dez/86.

– “Practitioner” em Programação Neurolinguística –em 1993, pela Sociedade Brasileira de Programação Neurolingüística

– Coaching – Professional Self Coaching, Coaching Ericksoniano e Psicologia Positiva, Neurocoaching pelo Instituto Brasileiro de Coaching – 2013 -2014

– Coching Financeiro License – Instituto Coaching Financeiro – 2016

– PALESTRAS

Empresas, Escolas, Igrejas

TEMAS

 Depressão; Qualidade de Vida; Autoestima; Cuidando do Cuidador; Prevenção e longevidade:  A importância de prevenir hoje para viver bem amanhã

– Consultório Particular:- Psiquiatria e Coach de Vida, Saúde e Finanças e  Mentoria para familiares de portadores de Doença de Alzheimer.

– TRABALHOS COM A COMUNIDADE

Projeto Cine Saúde:- Fundadora e coordenadora – Filmes com temática relativos a saúde física e mental e o envelhecer saudável.